Vejam só, quanto tempo se passou desde que uma ideia foi
depositada neste pequeno recanto de pensamentos obscuros.
Aos poucos leitores, um com certeza - sim N, estou falando
de você – o aviso foi dado. Isto aqui é movido por minhas inspirações, quando e
como elas surgem.
E hoje, ainda que brevemente, uma dessas inspirações bateu a
minha porta. E quando ela saiu, o que restou será o que se lê abaixo: Perguntas
retóricas.
Porque, santo Deus existencial, eu sou tão energizado pelos
meus vícios, pela minha luxúria, pelo sangue em efervescência ante a
possibilidade de me entregar a algo que, eu sei, será mais um saldo em uma
longa conta de atos questionáveis?
Porque prezo tanto todas essas facetas? Porque cuido com
tanto esmero do terno e gravata, assim como do nú, banhado em suor, olhos
vidrados a contemplar o ato sendo feito?
Esse sou eu, dividido em atos, em fatos, em cômodos. O Eu
sério, focado em uma carreira que tento, a custo, fazer acontecer, repleto de
anseios morais, desejos utópicos de justeza, justiça, igualdade. O Eu que não
condena comportamentos alheios.
Há também o Eu selvagem em seus desejos, o que cultiva centenas
de milhares de desejos, comuns, incomuns, profanos, proibidos, singelos,
profundos, intensos, frios, quentes, gigantescos, minúsculos. e olha cada um
desses desejos com cuidado, alimenta-os, acalenta-os, evolui cada um deles,
mantendo-os vivos, coesos e trabalha para que cada um deles seja satisfeito.
Ainda há o Eu filósofo, aquele que questiona o sentido dos
outros dois, que observa quase com frieza a dança que acontece entre eles, que
os entende, lhes dá justificativa, lhes dá centro.
E essa dança acontece em uma sinfonia terrível. A Luxúria,
nua e transpirando orgasmos, de braços dados com a Justeza, em sua armadura
cintilante de honestidade, bailando ao som dos brados síncronos do Bem e do Mal,
um trajando suas vestes de luminosa excrecência, outro em seu traje de voraz resiliência
– decidam quem veste o que - ambos cantando em contraponto, regidos com
ferocidade pela Utopia, esta gargalhando histérica a cada sonho realizado, a
cada desejo consumido, a cada decepção conseguida, a cada lampejo de ódio.
E eu me findo, olhos no espelho, um maldito sorriso
simpático no rosto, repetindo para mim mesmo as palavras “Seja Feliz”, e
sabendo que a cada entrega a qualquer dos extremos é mais uma gota de
felicidade nesses lábios ressequidos de tanta sede.