sábado, 18 de julho de 2015

Retórica?



Vejam só, quanto tempo se passou desde que uma ideia foi depositada neste pequeno recanto de pensamentos obscuros.

Aos poucos leitores, um com certeza - sim N, estou falando de você – o aviso foi dado. Isto aqui é movido por minhas inspirações, quando e como elas surgem.
E hoje, ainda que brevemente, uma dessas inspirações bateu a minha porta. E quando ela saiu, o que restou será o que se lê abaixo: Perguntas retóricas.

Porque, santo Deus existencial, eu sou tão energizado pelos meus vícios, pela minha luxúria, pelo sangue em efervescência ante a possibilidade de me entregar a algo que, eu sei, será mais um saldo em uma longa conta de atos questionáveis?

Porque prezo tanto todas essas facetas? Porque cuido com tanto esmero do terno e gravata, assim como do nú, banhado em suor, olhos vidrados a contemplar o ato sendo feito?

Esse sou eu, dividido em atos, em fatos, em cômodos. O Eu sério, focado em uma carreira que tento, a custo, fazer acontecer, repleto de anseios morais, desejos utópicos de justeza, justiça, igualdade. O Eu que não condena comportamentos alheios.

Há também o Eu selvagem em seus desejos, o que cultiva centenas de milhares de desejos, comuns, incomuns, profanos, proibidos, singelos, profundos, intensos, frios, quentes, gigantescos, minúsculos. e olha cada um desses desejos com cuidado, alimenta-os, acalenta-os, evolui cada um deles, mantendo-os vivos, coesos e trabalha para que cada um deles seja satisfeito.

Ainda há o Eu filósofo, aquele que questiona o sentido dos outros dois, que observa quase com frieza a dança que acontece entre eles, que os entende, lhes dá justificativa, lhes dá centro.

E essa dança acontece em uma sinfonia terrível. A Luxúria, nua e transpirando orgasmos, de braços dados com a Justeza, em sua armadura cintilante de honestidade, bailando ao som dos brados síncronos do Bem e do Mal, um trajando suas vestes de luminosa excrecência, outro em seu traje de voraz resiliência – decidam quem veste o que - ambos cantando em contraponto, regidos com ferocidade pela Utopia, esta gargalhando histérica a cada sonho realizado, a cada desejo consumido, a cada decepção conseguida, a cada lampejo de ódio.

E eu me findo, olhos no espelho, um maldito sorriso simpático no rosto, repetindo para mim mesmo as palavras “Seja Feliz”, e sabendo que a cada entrega a qualquer dos extremos é mais uma gota de felicidade nesses lábios ressequidos de tanta sede.

Condenem-me, louvem-me, apedrejem-me, canonizem-me. No fim, são os vermes que farão o banquete.