Completando (ou continuando o assunto) do post anterior...
Há de se dizer que não só o homem é violento, mas que a violência existe em cada ser vivo. Um leão, um tubarão, um Louva-a-Deus fêmea e tantos outros exemplos de criaturas que matam, estripam, desmembram e coisas "violentas" do tipo.
Isso não é violência, é instinto.
E o homem tem este mesmo instinto de destruição e auto-preservação, enterrado sob camadas e camadas de convenções sociais ou auto limitações(leia aqui) talvez mais auto-limitações do que as convenções.
Pois bem, se um instinto é reprimido, tal qual em um animal de zoológico, o que acontece com o bicho? Se deprime, se aquieta, se torna opaco.
E com o homem? Nossa habilidade de "racionalizar" é que se torna o problema nessa hora.
Um leão enjaulado vai lutar contra as grades, vai rugir, vai tentar agredir quem quer que se aproxime da jaula. E fará isso até suas forças se exaurirem, e irá perceber que "seja-lá-o-que-for" que o prende é forte demais para suas garras. Ele não percebe a jaula, ele não percebe sua liberdade, ele apenas sabe que não consegue andar mais do que uns poucos passos.
Já o homem, não. Sabemos o que queremos fazer, mas simplesmente nos negamos tal liberdade por medo, covardia, por pensar que é "errado", por julgar nossos atos pelos parâmetros estabelecidos pela maioria. Existe o aceitável e o inaceitável.
Então surge a possibilidade do anonimato. Fazer algo sem ser reconhecido. É quando muitos colocam as garras de fora (ou penas, ou asas, ou rabo, ou presas, ou punhos... tanto faz). É quando surgem as máscaras, tanto de couro quanto de meia, e por trás dessas máscaras se desenrolam atos de crueldade, sadismo, homossexualidade, heterossexualidade, polissexualidade que seja...
Mas um monstro não é liberado nunca: a Violência. Prende-se essa fera como se fosse a mais temível das bestas, e o é. Mas, ao contrário do Leão em um Zoológico, essa fera não arrefece com o tempo. A jaula não a domina, a privação da liberdade não a deprime, ser trancafiada não a faz definhar. Pelo contrário, ela cresce, mais e mais, alimentando-se de cada pedaço de ira, de cada lampejo de raiva, de cada minuto de mal-humor.
E contê-la é como conter a respiração. Existe um limite, que é facilmente alcançado quando algo nos ofende. Seja um xingamento, uma agressão, ou o que mais for.
Mas, novamente as convenções nos impedem de retribuir a ofensa no momento em que ocorre. Pise no rabo de um leão, mesmo enjaulado, e ele vai morder de volta.
E essa ausência de retribuição é que cria a figura vil e ardilosa da Vingança. É a retribuição feita a prazo, ou ainda, feita de modo a criar uma ferida ainda maior do que a recebida.
E essa imagem me veio após assistir ao filme "O Bem Amado", mais especificamente na figura do "Zeca Diabo" dizendo que "se descobrir qualquer um, com a mínima ligação com o coronel Emiliano Medrado, mesmo que fosse primo distante, eu despacho desse mundo".
O leão irá morder quem o pisar, e quem estiver perto, mas mais por raiva da dor do que por qualquer tipo de julgamento de culpa. O Zeca Diabo não, ele passa os anos vivendo sua vida, mas dentro do âmago dele a chama da vingança nunca se apaga.
E porque isso? Porque não simplesmente acabar com a morte do tal coronel? Porque, como todo ser humano, a violência continua instigando a vingança a perseguir seu objetivo, distorcendo, corrompendo, ampliando e criando desculpas para incluir esse ou aquele em sua lista.
O mundo seria um lugar muito mais pacífico se o porte - e o uso - de armas fosse totalmente permitido.
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